Personagens que mentem, manipulam, traem e até cometem assassinatos podem parecer repulsivos na vida real, mas na ficção a curiosidade sobre suas próximas ações é instigante. Exemplos notáveis incluem Tony Soprano, o chefe da máfia em “Família Soprano”; Walter White, o professor de química que se torna traficante em “Breaking Bad”; e Hannibal Lecter, o psiquiatra e serial killer de “O Silêncio dos Inocentes”. Essas figuras desafiam a crença tradicional de que os protagonistas devem ser agradáveis ao público.
A presença de personagens com moralidade ambígua não é uma novidade. Já em “O Poderoso Chefão”, Michael Corleone e Norman Bates de “Psicose” questionavam a divisão entre heróis e vilões. Contudo, a popularização da televisão por assinatura e do streaming possibilitou que esses tipos de personagens ocupassem papéis centrais em narrativas mais longas.
André Siqueira, consultor em estratégia de streaming e fundador da Viureview, destaca Tony Soprano como um exemplo representativo dessa mudança. Segundo ele, “Tony Soprano surgiu porque a HBO não priorizava audiência, mas sim assinaturas. Sem a pressão dos anunciantes, o canal não precisava de um protagonista simpático. Era necessário encontrar razões para manter os assinantes. Essa diferença comercial resultou em uma transformação estética”, explica.
A seguir, confira cinco fatores que ajudam a entender por que personagens indesejáveis na vida real conseguem cativar o público nas telas:
1. Identificação não é obrigatória
No passado, os protagonistas eram frequentemente moldados para facilitar a identificação do espectador. No entanto, os anti-heróis demonstram que essa conexão não precisa ser baseada na admiração ou semelhança.
No início da série, Walter White se apresenta como um professor de química preocupado com sua saúde e o futuro financeiro da família. Ao longo do enredo, suas escolhas se tornam cada vez mais difíceis de justificar. O público pode deixar de se identificar com suas decisões sem perder o interesse pela sua jornada.
Ado Oliveira, CVO da Watch TV – uma plataforma que agrega diversos serviços de streaming –, comenta: “Um personagem não precisa fazer com que o espectador concorde ou torça por ele; deve provocar reações como medo, raiva, desconforto ou curiosidade.”
2. A imprevisibilidade cria expectativa
A incerteza em relação às ações do protagonista aumenta o suspense na narrativa quando ele não segue um código moral claro.
Figuras como Hannibal Lecter podem ultrapassar limites que um herói convencional jamais cruzaria. O espectador sente que algo inesperado pode ocorrer a qualquer momento, mas não consegue prever exatamente o que vai acontecer ou qual será o próximo movimento do personagem. Essa imprevisibilidade é uma das grandes atrações dos anti-heróis.
3. As contradições provocam conflito no próprio espectador
A complexidade moral desses personagens leva o público a enfrentar sentimentos conflitantes. É possível entender as motivações deles sem necessariamente aprovar suas ações; pode-se sentir empatia em certos momentos e repulsa logo em seguida.
Tony Soprano exemplifica essa construção complexa: sua vida como chefe da máfia se entrelaça com conflitos familiares e crises pessoais, além das sessões terapêuticas que frequenta. Isso permite observar diferentes camadas do personagem sem justificar seus atos. Esse desconforto em classificá-lo totalmente como herói ou vilão contribui para o envolvimento do público.
4. Querer continuar assistindo não significa torcer
A permanência do público durante várias temporadas não implica automaticamente em desejar vitórias para esses personagens. O espectador pode anseiar por sua captura ou punição e ainda assim querer acompanhá-los na trama.
André Siqueira ressalta essa distinção ao afirmar: “‘Torcer’ é uma expressão comum nesse contexto. Ninguém deseja que Walter White escape sem punição; queremos apenas vê-lo continuar na história. Isso representa retenção, não torcida. Essa dinâmica é essencial para a indústria.”
<pAssim sendo, a expectativa muda de “ele vai ganhar?” para “como tudo isso acabará?”.
5. No streaming, essa atenção ganhou valor de negócio
Se os quatro primeiros fatores elucidam por que os espectadores permanecem engajados nas histórias, o último fator revela por que essa dinâmica se tornou crucial para a indústria audiovisual.
Neste cenário televisivo e no ambiente do streaming, conquistar a atenção do público é apenas parte do desafio; é igualmente importante garantir que eles continuem assistindo e retornando à plataforma em busca de novas narrativas envolventes.
Ado Oliveira enfatiza: “Ao desenvolver conteúdo, não consideramos apenas o potencial atrativo no lançamento inicial; um catálogo eficaz deve oferecer diversas formas de engajamento e razões para que o público siga explorando as opções disponíveis.” Personagens marcantes e histórias instigantes são fundamentais nessa equação.
Dessa forma, a trajetória dos anti-heróis revela uma evolução além das tramas convencionais. O público não precisa necessariamente admirar um personagem ou concordar com suas escolhas; às vezes, tudo que importa é saber: qual será seu próximo passo?
Por Sarah Corazza
O post Por que personagens que odiamos são tão difíceis de abandonar? Veja 5 motivos apareceu primeiro em O Diário de Mogi.






